15.9.09

Antonio Candido sobre Adoniran Barbosa

(retirado do blog palavrademusico.blogspot.com)

Publicado na contracapa do LP: "Adoniran Barbosa" (Odeon,1975; Dir. Musical de José Briamonte):

" Adoniran Barbosa é um grande compositor e poeta popular, expressivo como poucos; mas não é Adoniran nem Barbosa, e sim João Rubinato, que adotou o nome de um amigo do Correio e o sobrenome de um compositor admirado. A idéia foi excelente, porque um artista inventa antes demais nada a sua própria personalidade; e porque, ao fazer isto, ele exprimiu a realidade tão paulista do italiano recoberto pela terra e do brasileiro das raízes européias. Adoniran é um paulista de cerne que exprime a sua terra com a força da imaginação alimentada pelas heranças necessárias de fora.

Já tenho lido que ele usa uma língua misturada de italiano e português. Não concordo. Da mistura, que é o sal da nossa terra, Adoniran colheu a flor e produziu uma obra radicalmente brasileira, em que as melhores cadências do samba e da canção, alimentadas inclusive pelo terreno fértil das Escolas, se alia com naturalidade às deformações normais de português brasileiro, onde Ernesto vira Arnesto, em cuja casa nós fumo e não encontremo ninguém, exatamente como por todo esse país. Em São Paulo, hoje, o italiano está na filigrana.

A fidelidade à música e à fala do povo permitiram a Adoniran exprimir a sua Cidade de modo completo e perfeito. São Paulo muda muito, e ninguém é capaz de dizer aonde irá. Mas a cidade que nossa geração conheceu (Adoniran é de 1910) foi a que se sobrepôs à velha cidadezinha caipira, entre 1900 e 1950; e que desde então vem cedendo lugar a uma outra, transformada em vasta aglomeração de gente vinda de toda parte. A nossa cidade, que substituiu a São Paulo estudantil e provinciana, foi a dos mestres-de-obra italianos e portugueses, dos arquitetos de inspiração neo-clássica, floral e neo-colonial, em camadas sucessivas. São Paulo dos palacetes franco-libaneses do Ipiranga, das vilas uniformes do Brás, das casas meio francesas de Higienópolis, da salada da Avenida Paulista. São Paulo da 25 de março dos sírios, da Caetano Pinto dos espanhóis, das Rapaziadas do Brás, na qual se apurou um novo modo cantante de falar português, como língua geral na convergência dos dialetos peninsulares e do baixo-contínuo vernáculo. Esta cidade que está acabando, que já acabou com a garoa, os bondes, o trem da Cantareira, o Triângulo, as Cantinas do Bexiga, Adoniran não a deixará acabar, porque graças a ele ela ficará, misturada vivamente com a nova mas, como o quarto do poeta, também "intacta, boiando no ar."

A sua poesia e a sua música são ao mesmo tempo brasileiras em geral e paulistanas em particular. Sobretudo quando entram (quase sempre discretamente) as indicações de lugar, para nos porem no Alto da Mooca, na Casa Verde, na Avenida São João, na 23 de Maio, no Brás genérico, no recente metrô, no antes remoto Jaçanã. Quando não há esta indicação, a lembrança de outras composições, a atmosfera lírica cheia de espaço que é a de Adoniran, nos fazem sentir por onde se perdeu Inês ou onde o desastrado Papai Noel da chaminé estreita foi comprar Bala Mistura: nalgum lugar de São Paulo. Sem falar que o único poema em italiano deste disco nos põe no seu âmago, sem necessidade de localização.

Com os seus firmes 65 anos de magro, Adoniran é o homem da São Paulo entre as duas guerras, se prolongando na que surgiu como jibóia fuliginosa dos vales e morros para devorá-la. Lírico e sarcástico, malicioso e logo emocionado, com o encanto insinuante da sua anti-voz rouca, o chapeuzinho de aba quebrada sobre a permanência do laço de borboleta dos outros tempos, ele é a voz da Cidade. Talvez a borboleta seja mágica; talvez seja a mariposa que senta no prato das lâmpadas e se transforma na carne noturna das mulheres perdidas. Talvez João Rubinato não exista, porque quem existe é o mágico Adoniran Barbosa, vindo dos carreadores de café para inventar no plano da arte a permanência da sua cidade e depois fugir, com ela e conosco, para a terra da poesia, ao apito fantasmal do trenzinho perdido da Cantareira." (Antonio Candido, 1975)

7.8.09

Tom Jobim & Ella Fitzgerald: Desafinado


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29.7.09

Monsanto impede distribuição de cartilha sobre agroecologia

Reportagem extraída do site do MST.
 

Monsanto impede distribuição de cartilha sobre agroecologia

28/07/2009


Uma cartilha produzida pelo Ministério da Agricultura sobre agroecologia teve sua distribuição impedida. A cartilha "O Olho do Consumidor", que conta com ilustrações de Ziraldo, foi lançada para divulgar a criação do "Selo do SISORG" (Sistema Brasileiro de Avaliação de Conformidade Orgânica) que pretende padronizar, identificar e valorizar produtos orgânicos, orientando o consumidor.

O livreto, que teve tiragem de 620 mil cópias, foi objeto de uma liminar de mandado de segurança, fruto de ação movida pela transnacional Monsanto, que impediu sua distribuição. Setores do Ministério ligados ao agronegócio também não ficaram contentes com as informações contidas na cartilha. O arquivo foi inclusive retirado do site do Ministério.

A proibição se deu por conta do item 5 da página 7 (imagem ao lado), onde se lê:

"O agricultor orgânico não cultiva transgênicos porque não quer colocar em risco a diversidade de variedades que existem na natureza. Transgênicos são plantas e animais onde o homem coloca genes tomados de outras espécies".

Em autêntica desobediência civil e resistência pacífica à medida de força, o MST se junta a todos aqueles que estão distribuindo eletrônicamente a cartilha. Se você concorda com esta idéia, continue a distribuição para seus amigos e conhecidos.
 
endereço eletronico da cartilha:

28.7.09

Ainda o PT

Prometo gastar posts a questões menos enlameadas. Só para terminar a noite:

Meu destaque: "Suplicy conversou na sexta-feira com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre o afastamento de Sarney, mas não conseguiu reverter o apoio do governo a manutenção de Sarney na presidência do Senado. O governo está preocupado com a governabilidade, com a CPI da Petrobras e com o apoio do PMDB nas eleições de 2010."

Em: "Comando do PT negocia trégua da bancada no Senado sobre situação de Sarney"

Vale Homem-Aranha


Resposta a Leonardo Sakamoto

Segue a reposta que publiquei à postagem de Leonardo Sakamoto, em aparente resposta à postagem de Gilberto Dimenstein sobre o Vale Cultura do presidente:

Ta, mas você quis dizer o que, então?

Algumas críticas ligeiras às leituras conservadores do projeto. Muito bem. Mas as críticas, ainda mais, são necessárias, e muito, para desmistificar o reacionarismo deste governo que se pretende progressista (Reforma Agrária, em duas palavras).

Meu questionamento em relação a esta política, e não apenas a esta, é simples: Por que o presidente petista (não digo nem escrevo mais seu nome), se está realmente interessado em ampliar o acesso à Cultura à população mais carente não abre centros Culturais? Por que não melhora a qualidade do ensino fundamental e médio? Por que não libera mais verbas para o ensino público superior ao invés de vender a Educação aos barões da universidades privadas (em duplo sentido)? Por que não regulamenta a Lei Rouanet ao invés de permitir que os grandes empresários da Indústria Cultural (e você utilizou o termo no post, deve acreditar que existe? Ou é só mais uma paranoia da 'elite' Cultural?) se apropriem descaradamente do dinheiro público?

Qualquer apoio não crítico a esta política é acreditar que nada de melhor poderia ser feito.

Para mim o Bolsa Cultura, é Vale-Homem-Aranha, ou como disse o Dimenstein, é Bolsa-Circo. Mais uma atitude populista do presidente que quer resolver o problema da Educação com o ProUni (o movimento é duplo: não olhar para a Educação básica e dar dinheiro para os barões do ensino superior) e o da Cultura com Vale-Cinema.

O que mais me incomoda no projeto não é de forma alguma dar dinheiro às camadas mais necessitadas (aliás, ele não dá nada, apenas devolve o dinheiro à população, ao invés de investir em benefícios públicos, como seria a obrigação do Estado), é tratar Cultura, como foi explicito o presidente em discurso, e seu Ministro da Cultura, como mercadoria. Alegram-se todos ao perceber que pode-se movimentar a economia a partir da Cultura. É só disso que se trata, aliás, movimentar a economia, sempre e a qualquer custo. Provavelmente impulsionado pelo Vale-Homem-Aranha, aconteceu dia 27 o "Primeiro Seminário Nacional da Indústria da Cultura" (http://tiny.cc/Q2V9g). A política petista em relação a Cultura não é política, é entrega deliberada. Eis a posição do Ministro:



"O Vale-Cultura poderá ser utilizado para qualquer gênero artístico, não apenas para aqueles menos comerciais, que teriam menor capacidade de divulgação ou atração de público. E é bom que seja assim, enfatiza o ministro da Cultura, Juca Ferreira:

- Olha aí o dirigismo... Não me induza ao dirigismo... - brinca Ferreira. - O modo como vai se dar o consumo deve ser do livre arbítrio do consumidor. Isso vai até ser saudável para os setores. Eles vão ter que se preocupar mais em se comunicar melhor com suas plateias. O público vai passar a ter um poder de barganha maior". (http://tiny.cc/EHXH2)


O que eu entendo desta declaração é a seguinte norma neo-liberal: A disputa (para o 'consumidor' de Cultura) é livre, quem vender melhor o peixe ganha o consumidor. Claro que nesta concepção qualquer relação com a realidade social, o nível e qualidade de Educação do 'consumidor' médio, a relação dele com sua própria Cultura, e o alcance de cada lado (da Indústria Cultural e do resto), não são considerados. Como a maior parte das políticas petistas, o neo-liberalismo, a falsa impressão de igualdade durante a disputa, são aceitos como verdade.

E uso 'consumidor' entre aspas porque acredito que uma concepção verdadeira de Cultura entende o indivíduo não como produtor OU receptor de Cultura, mas em uma interação de mão dupla que enriquece a ambos. Cinemarketing e Ivete Sangalo, como disse antes, não proporcionam isto, mas o contrário. O aprofundamento da distância entre o indivíduo e a Cultura da qual ele faz parte.

Veja, as acusações simplistas que você faz de 'paternalismo Cultural' são não mais do que, 1) a aceitação de que a Indústria Cultural existe como fenômeno 'natural', ou seja, que não existem ganhos políticos com ela e que ela não é produzida para ganhos políticos, 2) planificar os produtos da Indústria, com a arte e Cultura de verdade, sejam elas polulares ou eruditas (seja lá qual for esta distinção).

Não acho que existe boa vontade na política, o que pode existir é imbecilidade do presidente, do que eu não duvido. O efeito positivo mínimo que isso pode ter, que é tirar as pessoas de casa e 'obrigá-las' a investir dinheiro em outra coisa (há aqui também uma discussão necessária sobre a obrigatoriedade do trabalhador em se investir em Cultura), não é maior do que a venda do conceito de Cultura que, ao invés de ser discutido, como qualquer conceito em uma democracia, é simplesmente aplicado. Aqui caberia uma longa discussão sobre o que significa Cultura para um povo. No básico: a Cultura é a relação do povo com sua própria tradição. A partir do momento em que um governo vende esta relação (e é isso que o Bolsa-Cultura faz, lança um vale cinquenta reais para a livre selva neo-liberal e a Indústria Cultural muito provavelmente vencerá esta fácil, prova disso é que quase ninguém reclamou do 'benefício' ainda), ao invés de aprofundá-la e enriquecê-la com investimentos na Educação – que é no fundo, a iniciação do indivíduo aos valores morais de sua própria Cultura - e na Cultural verdadeira, o incentivo ao conhecimento da história dos diversos povos que constituem esse país, o incentivo a troca destas Culturas e a, no limite, a identificação maior com a coletividade que o indivíduo constitui.

No mais, me parece esperança petista, já vencida, há tempos.

21.7.09

Minha mensagem ao Google

Para ser candidato a tester do tal Google Wave:
 
Write a message to the Google Wave Team (Haikus, sonnets and ASCII art all accepted):
 
Whether can I or not
This honor place fulfill
In mighty Google dot
com, keep trying I will
For I´m from the spot
That never gives up: Brazil!